Distante a bailarina tem
Um plácido palco de pernas puras
Mas ferida dança nas escuras
Praças da cidade sem compaixão
Todas as praças são teatros
Silenciosos de espectros aplaudindo a dor
Silenciosos de apagados astros
E ela vai deslizando sublime
Ao seu pescoço agarram-se os mal-amados
Segue sem suspiros nem beijos inesperados
No seu rastro apenas a sombra de um crime
Nas caóticas camadas de sua mente
Escondem-se escuras medusas
Morre o amor de corpo presente
E nasce por ventres invisíveis
E engole sêmen anônimo
Coreografada pela própria sombra indizível
Com ombros leitosos e marmóreos
Ela vai na ala desprotegida
Onde as espadas da sombra a penetram
E os brilhos como cavalos de corrida
A enfeitiçam
Porque ela tem um palco mas sem dança
Porque a música parou
Porque o destino deixou
O seu nome na minha lembrança
Porque a sua arte foi incompreendida
A sua apoteose vendida
E ela tem as mãos delicadas de decepções
E é em vão que ela se agiganta até Antares
Conquistando o calor da noite pura
Buscando a luz que há nos olhares
Nenhum fogo cauterizará a ferida do seu coração
As culpas são eternas e inoperáveis
Em vão buscará a luz
Que pelas frestas invade corpos amáveis
Ela morrerá sem música e sem aplauso
Sem palco iluminado e sem gozo lauto
Morrerá sob lençóis escuros
Cacos de fluidos e estilhaços de lágrimas
Penetrarão nas sombras dos dias reclusos.