Saída do palco à esquerda (1)

Distante a bailarina tem

Um plácido palco de pernas puras

Mas ferida dança nas escuras

Praças da cidade sem compaixão

 

Todas as praças são teatros

Silenciosos de espectros aplaudindo a dor

Silenciosos de apagados astros

 

E ela vai deslizando sublime

Ao seu pescoço agarram-se os mal-amados

Segue sem suspiros nem beijos inesperados

No seu rastro apenas a sombra de um crime

 

Nas caóticas camadas de sua mente

Escondem-se escuras medusas

Morre o amor de corpo presente

 

E nasce por ventres invisíveis

E engole sêmen anônimo

Coreografada pela própria sombra indizível

Com ombros leitosos e marmóreos

 

Ela vai na ala desprotegida

Onde as espadas da sombra a penetram

E os brilhos como cavalos de corrida

A enfeitiçam

 

Porque ela tem um palco mas sem dança

Porque a música parou

Porque o destino deixou

O seu nome na minha lembrança

 

Porque a sua arte foi incompreendida

A sua apoteose vendida

E ela tem as mãos delicadas de decepções

 

E é em vão que ela se agiganta até Antares

Conquistando o calor da noite pura

Buscando a luz que há nos olhares

 

Nenhum fogo cauterizará a ferida do seu coração

As culpas são eternas e inoperáveis

Em vão buscará a luz

Que pelas frestas invade corpos amáveis

 

Ela morrerá sem música e sem aplauso

Sem palco iluminado e sem gozo lauto

Morrerá sob lençóis escuros

Cacos de fluidos e estilhaços de lágrimas

Penetrarão nas sombras dos dias reclusos.

 

 

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